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domingo, 16 de novembro de 2008

Conforme afirmei ontem, vou hoje prosseguir com mais uma pequena biografia de Modelos Vicentinos, agora desta vez, sobre a figura carismática de "O Santo Homem de Tours" Léon Papin Dupont que viveu entre 1797 e 1876.
A vida de intensa piedade e de confiança absoluta no poder da oração, que caracterizou o "Santo Homem de Tours", também conhecido pelo "Servo da Santa Face" e pelo "Taumaturgo de Tours", tentou os biógrafos, a um dos quais, L. Baudiment, Superior do Seminário Maior de Tours, vamos respigar alguns traços marcantes de tão extraordinária influência sobrenatural, desenvolvida no século de Taine e de Renan.
Nasceu na Martinica, de família nobre, originária da Bretanha - - Papin du Pontcallec - que ele, modestamente e apenas interessado na genealogia que o tornava filho de Deus e irmão de Nosso Senhor e dos Santos, simplificou para o banalissimo "Dupont".
Feitos os primeiros estudos na escola local, seguiu para os Estados Unidos e logo que voltou a paz aos mares, para França onde no Colégio de Pontlevoy, deu as primeiras provas de carácter: surpreendido um dia o curso, de que fazia parte, em flagrante atitude de distúrbio no tempo de estudo, de entre os vinte e nove alunos, apenas Léon se acusou, o que mereceu ao professor este dito de espírito, no momento em que tocava para o recreio: "Oh meu rico menino, não merece ficar aqui misturado com estes companheiros tão bem comportados, vá para o recreio".
Em Paris cursou Direito e licenciou-se em 1821. Paralelamente à sua vida de trabalho e de piedade, que nunca abandonou, no meio daquela sociedade voltairiana, levou ali vida bastante mundana: bonito rapaz, de elevada estatura e maneiras distintas, rico e de boa família, foi notado na sociedade elegante como cavaqueador, dançarino e boa mão de rédea. Até que soou a hora em que Deus lhe fez compreender o lado sério da vida cristã: data daí aquilo a que, pela vida fora, ficou sempre a chamar "a sua conversão", nascida da curiosidade que o levou a acompanhar um jockey admitido ao seu serviço, para assistir a uma sessão da obra dos "Petits Savoyards"; fica maravilhado com a existência, naquela hora conturbada, de cristãos que sacrificam a sua liberdade à salvação do próximo, indo ensinar a catequese, e isto decide-o a entrar para a chamada "Congregação", criadora das obras dos hospitais, das prisões, dos pequenos Saboianos e de S. Francisco Régis.
Começa então a praticar a Confissão e Comunhão hebdomadárias, esforça-se por dominar o génio, naturalmente violento, e tem rasgos de extrema generosidade e sacrifício heróico: um dia entra numa papelaria no momento em que os credores se precipitam sobre o proprietário, pobre homem, carregado de família, que suspendera pagamentos, por falta de 1 500 francos. Dupont, informado, diz apontando para a rua: "Pegue no meu cavalo e no tilbury, venda e pague", o que foi feito.
Regressado à Martinica, exerce conscienciosamente a magistratura e casa em 1827. Tem fervor e é zeloso na prática das obras, embora ainda longe daquele futuro nível de vida, integralmente consagrada a Deus; frequenta a sociedade, dança e aprecia os exercícios corporais, em que é exímio: a caça, a equitação e a natação.
Do casamento nasce uma filha, mas oito meses decorridos a mãe é levada pela tuberculose e só a fé consegue sustentar a amargura do pai. A saúde e a educação da filha levam-no a partir para França, para o que pede no Tribunal uma licença, logo transformada em demissão.
Hesitante sobre vocação religiosa, aceita a vontade de Deus: será cristão leigo, disposto a levar a virtude até ao seu meio social, como excelente precursor que foi da Acção Católica. E como a cidade de Tours ficou edificada com a atitude duma das suas figuras mais marcantes, que acompanha o Viático, ajuda à Missa e toma parte em todos os actos de culto!
Simples na fé, sabe que Deus não restringiu ao passado, acção e palavra: ainda no nosso tempo faz milagres e revela-se às almas. Acha inteiramente naturais essas manifestações, vai a La Salette e interessa-se por outras revelações, entre as quais as da Irmã S. Pedro do Carmelo de Tours, desejosa de propagar a devoção à Santa Face, que M. Dupont toma à sua conta, para o que erige em casa um Oratório, com uma lâmpada, permanentemente acesa. Nele reza com confiança ilimitada, que dele irradia para quantos ali acodem e Deus, em sua infinita misericórdia, vai concedendo graças às mãos cheias.
Foram admiráveis os esforços que desenvolve para a conversão dos hereges. Assim, pelo testemunho deixado no seu jornal por William Palmer, houve conhecimento da decisiva influência que tiveram na sua plena adesão a Roma as amigáveis entrevistas que tivera em Tours, sobre a presença real na Eucaristia, com o nosso biografado. O prestigio de que este gozava levara Mr. Palmer a procura-lo, quando veio ao continente tratar, de boa fé, fundir as Igrejas cristãs.
A conversão do oficial inglês Mr. Straker, essa foi obtida à força de confiança inteiramente sobrenatural que M. Dupont soube incutir à esposa daquele, irlandesa católica, quando esta se lhe dirigiu a pedir orações. "- Tenha confiança: o seu pedido será atendido!"
Pela fé que depositou na medalha de S. Bento, da qual foi grande propagandista, conseguiu graças extraordinárias, de que nos dá relação Dom Guéranguer, tais como conversões, reconciliações, facilidades na resolução de complicados negócios, preservação de incêndios, etc. Não pode deixar de ser citado o caso duma vaca duma comunidade pobre, à qual secara o leite e que voltou a tê-lo; nem tampouco o ainda mais estranho da mobilização dos corvos da Catedral contra os rebentos dos choupos que cercam a vedação do seu quintal, onde cultiva couves para os pobres de Tours!
Grande foi a sua lição de esperança, talvez incutida pelo Santo Cura d'Ars, ainda então desconhecido do grande público, mas a quem M. Dupont, que ouvira falar dos seus prodígios regressando de La Sallete, procurou a pedir uma palavra de estimulo. Lobrigando-o no meio da multidão, o Santo Cura d'Ars estendeu-lhe os braços e abraçou-o exclamando: "Meu querido Amigo, voltaremos a ver-nos no Paraíso. Que bom será cantarmos os louvores de Deus!"
E esta consoladora esperança o sustentou pela vida fora.
Que dizer então do Divino Amor de Deus, única explicação da sua renúncia e das suas obras? Da alta ideia que tem dos direitos de Deus decorre a inclinação para as tarefas reparadoras: Adoração nocturna, culto da Santa Face, etc., assim como o verdadeiro amor do próximo, aquele que procede do amor de Deus, porque vê a Deus nos seus irmãos, sobretudo nos mais desgraçados, nos menos amáveis; só assim se ama à maneira do nosso Mestre, que morreu pelos ímpios. "Sejamos sempre pontuais em servir os pobres - diz ele - é a Jesus que honramos na Sua pessoa".
Redobrava de generosidade ao receber as rendas das colónias. "Que é feito do dinheiro?" -perguntava-lhe a mãe. - "Já se acabou, mas virá mais para o ano". Outras vezes assaltava o guarda roupa, de tal maneira que, diz o criado, tinha de recolher à cama quando era preciso remendar-lhe as únicas calças que lhe restavam.
Um dia, procurado por uma pobre ameaçada de despejo e sem ter que lhe dar, entrega-lhe a preciosa caixa de rapé. E, com esse gesto, lucrou mais a perda dum vício.
E quantos prodígios de caridade encobertamente praticados! Tal o caso duma senhora da Martinica, que perdera toda a fortuna; no entanto, não deixa de receber regularmente géneros coloniais e felicita-se pelo facto de a sua propriedade dar ainda algum rendimento ... secreta delicadeza do seu conterrâneo!
Dedica-se especialmente à visita dos presos e que magníficos frutos colhe então desse apostolado!
Compreendendo a força da associação, entra para a Conferência de S. Vicente de Paulo de Tours, em 1844, onde foi o mais assíduo, o mais activo, piedoso e generoso dos vicentinos. Pontualíssimo, nunca perde a oração e leitura espiritual. Não apresenta qualquer projecto sem prévio entendimento com o Presidente. Não pôde levar a cabo os seus projectos de organização metódica da visita aos presos e criação duma hospedaria gratuita para pobres, mas toma parte, durante longos anos, no ensino ministrado a 150 rapazes e adultos, na aula mantida pela Conferência; requisita para si os mais estúpidos e atura-os com a maior paciência. Da mesma maneira ensina na obra dos soldados, igualmente a cargo da Conferência e aí é ouvido com todo o respeito pelos soldados, admirados por verem um homem do mundo falar-lhes como ninguém, jamais lhes falara.
Auxilia muitas outras obras: o orfanato de rapazes, onde as hortaliceiras que encontra na rua vão despejar cestos inteiros, por ele pagos; os missionários de Bouligny (para a evangelização das populações rurais), instituição à qual doa a sua propriedade de Bouligny; e as Irmãzinhas dos Pobres, para as quais conseguiu a fundação duma casa em Tours e a quem presta assistência constante e generosa.
A necessidade de render a Deus o culto que lhe é devido, em oposição à blasfémia e ao sacrilégio, condu-lo à fundação da obra da Adoração Reparadora. Mas não só a fundou; dotou-a com camas, colchões, cobertores e roupas, sempre impecavelmente limpas, soalhou o salão, comprou uma estufa, forneceu combustível, lâmpadas, genuflexórios, etc., assistiu sempre e dirigiu a Adoração, e acabou por dar 10 mil francos para a construção duma cripta. Criou um registo das intenções comuns, que eram lidas antes da exposição do Santíssimo e nesse registo marcava com uma cruz as que eram atendidas!
Tem uma encantadora história a primeira cruz:
O Padre Redon, Superior dos Padres da Missão, precisava de 4 000 francos para acudir a embaraços de negócios dum pobre homem; falou a M. Dupont, que inscreveu a intenção no registo para a Adoração dessa noite, e lhe disse: "Estou certo de que amanhã terá esse dinheiro". - Às quatro horas da madrugada o Padre Redon, dita a Missa da Adoração, tomava a diligência de Orléans. Ao clarear, um seu vizinho, velho amigo, reconheceu-o e entabulou conversa; na muda próxima disse ao padre: "Ainda bem que o encontrei, pois quero pedir-lhe um serviço; tenho comigo uma quantia para aplicar em boas obras e vai ser o meu Amigo quem disso se vai encarregar", - E entregou-lhe o dinheiro: eram quatro mil francos!
A grande devoção de M. Dupont a S. Martinho reflectiu-se na população de Tours. Para mais a avivar, por forma a tornar possível a erecção duma grande basílica no local do túmulo do Santo, por ele descoberto, cria a grande obra do Vestiário de S. Martinho por ele idealizada e cuja presidência é obrigado a tomar, obra que ainda hoje subsiste com o primitivo regulamento, por ele traçado, o qual em nada perdeu a sua oportunidade.
A obra abrange homens e mulheres: destas, há duas costureiras, que cosem, remendam e adaptam e há senhoras zeladoras, encarregadas da propaganda e recolha de roupa e esmolas. Os homens eram todos os Presidentes e Secretários das Conferências de S. Vicente de Paulo de Tours, desta maneira interessados nesta obra comum, que logo tomou grande desenvolvimento; ao fim de quatro meses tinha distribuído 300 fatos e no fim do primeiro ano, 996.!!!
O biógrafo destaca a extrema humildade de M. Dupont que, conforme uma das testemunhas do processo, levava este homem fidalgo, rico, antigo magistrado, a viver entre os deserdados da terra e como que ao seu nível. E com que indignação se opunha ao desejo dos amigos, que pensavam em tornar conhecidas graças alcançadas em sua casa.
Encara a vida com aquela seriedade devida a um meio de conquistar o Céu, o que não impede de manter sempre são optimismo cristão, que se contenta com pedir a Deus a graça necessária a cada dia, agradecendo aquilo que considera como um dos maiores benefícios; o véu lançado sobre o futuro, única forma de nos entregarmos atentamente ao presente.
Como exercícios de perfeição, aconselha a Comunhão frequente, a leitura do Evangelho e prudentes penitências corporais. Considera a perfeição una, porque para todos, união com Cristo; e ao mesmo tempo diversas, dada a variedade dos nossos temperamentos; a unidade consiste em se fazer a vontade de Deus, como crianças, pois só no espírito da infância é possível encontrar a paz e a alegria. E a esta simplicidade do "caminho da infância" junta a reparação.
Que soma de desvelos lhe mereceu, no corpo e na alma, a sua filha Henriqueta, esse tesouro que por Deus fora confiado à sua guarda e que ele queria entregar de novo a Deus! Com que prazer acolheria uma vocação religiosa, que a colocasse ao abrigo dos riscos do mundo!
E como, pelo contrário, o aterrou a transmissão dum pedido de casamento, aliás para um titular ilustre e apresentado por um sacerdote amigo! Conta este que M. Dupont, estendendo os braços, os levantou seguidamente ao Céu, com expressão que jamais poderia esquecer e que sugeriu o pensamento da oferta a Deus da própria filha, cujo sacrifício fazia. E Deus aceitou-lho: em breve, atacada por uma doença infecciosa, recebeu os últimos Sacramentos e morreu ouvindo o pai recitar-lhe as orações da agonia e incitá-la a desprender-se alegremente da vida, para em breve se encontrarem no Céu. Voltando-se para os presentes, M. Dupont exclamou com voz inspirada: "A minha filha vê a Deus" e, para bendizer a misericórdia divina que acolhia a filha no paraíso, conseguiu dominar heroicamente a sua dor e recitou em voz alta o Magnificat!
Mais e mais se vai desprendendo do mundo, para se entregar à oração, às obras, ao culto da Santa Face, do qual Tours ia ser o centro. E com que extraordinárias curas premiaria Deus a grande confiança com que a Ele se recorria! Um caso apenas, de entre os inúmeros recolhidos:
"Regressando da Missa, estava M. Dupont a abrir o correio uma manhã no Oratório, voltado para a Santa Face. Falava uma das cartas dum rapazinho muito gravemente doente, recomendado com grande piedade e confiança às orações do Servo da Santa Face. M. Dupont lê a carta e, com o papel na mão, lança um olhar para a imagem iluminada pela lâmpada, exclamando: "Senhor, bem vedes que não há tempo a perder!" Isto com tanta caridade, com tanta fé, que àquela mesma hora e a cem léguas de distância, a criança era maravilhosa e completamente curada. E poucos dias passados, em Tours com seus pais, todos ajoelhados ao lado de M. Dupont no Oratório, agradecem a grande graça.
Os últimos dias da vida são de doloroso sofrimento: a gota ataca as mãos, depois as pernas, quase não pode escrever; a paralisia avança mais e mais. Suporta com inteira conformidade o sofrimento, recebe os últimos Sacramentos e responde às orações dos agonizantes, até que, chegando ao salmo "Beati Immaculati In Via ...", um angélico sorriso lhe ilumina os traços pela última vez e descansa no Senhor. Tours em peso desfila diante do corpo e no funeral, para o qual ele pedira que não convocassem "os que não sabem rezar", é dado o lugar de honra aos seus amigos, os pobres.
Entretanto o culto da Santa Face não cessa; alarga-se ainda mais, porque os Carmelitas compram a sua casa; o Arcebispo de Tours, "reconhecendo que M. Dupont morreu em cheiro de santidade e que naquela casa se produziram tantos factos maravilhosos" transforma a sala em capela, que benze solenemente e organiza o culto da Santa Face, para o que erige a "Confraria Reparadora". Acorrem multidões àquele centro, onde se dizem muitas Missas em cada dia.
Em 1 de Outubro de 1833, o Arcebispo manda abrir o "processo informativo" sobre a heroicidade das virtudes e os milagres do Servo de Deus, Léon Dupont, o que se fez imediatamente; em oitenta sessões foram ouvidas inúmeras testemunhas e as actas só foram entregues em 1888.
Concluido o processo informativo, S. S. o Papa Leão XIII mandou, em 1891, abrir o processo de beatificaçao; começou o exame dos escritos e iniciou-se o chamado "processo de não-culto", fase em que se procura averiguar se não terá havido antecipaçao de culto. Entretanto houve uma longa suspensão e só em 1926 é que S. S. Pio XI permitiu que o processo entrasse na fase definitiva.