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sábado, 29 de novembro de 2008

então ... e os pobres ?

Do livro "então ... e os pobres?" ouso transcrever alguns textos que foram editados pelos Conselhos Centrais das Conferências Vicentinas de S. Paulo, do Porto, em 2004. Os textos foram compilados por António Ferreira de Gouveia, Bernardino Queirós Alves e Domingos Oliveira e a sua Apresentação foi escrita pelos Presidentes dos referidos Conselhos Centrais, Arminda Marques e Luís Roque, a quem com a devida vénia, peço autorização para a transcrição de alguns capítulos, que creio merecerem a atenção de todos os Vicentinos.
Cristo, o Mestre da Caridade
O Evangelho, boa Nova do Amor a Deus e aos irmãos
1. "Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei".
O Amor do Pai revela-se a todos nós na Pessoa de Jesus Cristo. As suas palavras, os seus gestos, o modo como viveu entre nós, o estilo de vida que viveu, os valores que defendeu e comunicou, em tudo isto se expressa a novidade do Seu Amor.
A actividade social do Estado e das Instituições particulares procuram responder aos problemas dos pobres. Esta actividade está organizada num Ministério e tem estruturas nacionais e regionais. Gasta muito dinheiro e orienta-se por critérios de eficácia. A Igreja, na sua Pastoral da Caridade e nas Instituições de Solidariedade Social procura trabalhar com os pobres e a partir dos pobres e não para os pobres.
Os pobres não são considerados objecto mas o sujeito e pretende-se que eles sejam também actores. É aqui que se encontra a novidade da Pastoral da Caridade promovida pelos cristãos e pela Igreja: "Amai-vos como eu vos amei", é no como que está a novidade. Cristo é o Mestre. Há um modo específico, próprio, que o Evangelho nos propõe.
Muitas vezes na Sagrada Escritura a ajuda aos mais pobres é referenciada como uma forma de poder. S. Lucas 22, 25 diz: os reis da terra dominam as nações e os que exercem a autoridade são chamados benfeitores. Mas o Evangelho diz: Convosco não seja assim: o que quiser ser o maior seja o servidor de todos.
2. Cristo está atento ao clamor dos pobres
O Evangelho diz-nos que do meio da multidão barulhenta, o cego deu conta de que Jesus passava e gritou: Filho de David, tem compaixão de mim. Jesus perguntou: Quem me chama? Ouviu o clamor do cego e por causa da sua fé, curou-o. A mulher que sofria de hemorragia crónica dizia: se eu ao menos lhe tocar no manto ficarei curada. Jesus sentiu que ela lhe tocou e ela ficou curada com a força de Jesus.
Jesus percorria os caminhos dos homens e encontrava os que precisavam de libertação: os que estavam escravizados pelo dinheiro, como Zaqueu, os que estavam paralisados, que punha a andar, os que eam marginalizados, como os leprosos, os que eram humilhados, como as prostitutas, os que eram colocados à parte e mal vistos, como os Samaritanos. A todos Ele libertava. Estes e muitos outros levam Jesus a dizer: tive compaixão deste povo. Por isso, Ele foi Bom Pastor e deles se aproximou como Bom Samaritano.
3. Cristo é Mestre como Bem-aventurado
Nas Bem-Aventuranças (Lc 6, 22ss) Ele dá o conteúdo do pobre e do seu caminho para estabeledcer no mundo a Justiça e a Paz. A novidade da acção cristã encontra-se aqui expressa. É n'Ele que aprendemos as Bem-Aventuranças.
Bem-aventurados os pobres: os que não estão presos aos bens e na sua pobreza sentem e sofrem o que isso significa. Bem-aventurados os pobres que estão despojados de egoísmo, da escravatura e da prisão de bens.
Os pobres de bens materiais precisam de não se escravizar aos bens quando os podem conquistar. São as duas dimensoes do pobre. Jesus, na multiplicação dos pães, chamou a atenção àqueles que nâo perceberam para além do pão material.
Nas bem-aventuranças Jesus chama a atenção para vários aspectos de uma Pastoral da Caridade:
- Felizes os pobres, porque deles é o Reino dos Céus;
- Felizes os aflitos porque serão consolados;
- Felizes os que têm fome e sede de justiça porque serão saciados;
- Felizes os misericordiosos porque alcançarão misericórdia;
- Felizes os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles
é o Reino dos Céus;
4. Jesus e a opção dos pobres
O que fizerdes ao mais pequeno é a Mim que o fazeis (Mt 25, 40);
O Espírito do Senhor repousa sobre Mim e me enviou a anunciar a Boa Nova aos pobres (Lc 4, 18-19):
A Boa Nova é anunciada aos pobres (Mt 11, 4-5).
Jesus despoja-se para se identificar com os pobres (Fil 2, 5-8). Em Mt 25, dar ao homem o que o dignifica e liberta é construir o Reino de Deus, é tê-lo como herança. A Igreja no nosso país e no nosso mundo tem confirmado esta sua vocação e missão de estar com os pobres: é por isso que todos saberão se sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros (Jo 13, 55).

Jesus junto dos pobres nâo só os ajudou nas suas necessidades, mas libertou-os do que os tinha dependentes tornando-os autónomos e dignos. Além disso, Jesus denunciava as causas dessa dependência ou opressão; o pecado, as injustiças e desníveis sociais e a moral legalista que culpabilizava e marginalizava. Diz aos fariseus que eles carregam os homens com fardos pesados, que praticam a violência (o sangue de Abel e Zacarias), e se apoderam das chaves da Ciência (Lc 11, 37-54). Jesus percorria toda a Galileia e curava todos as enfermidades (Mt 4, 23-24).

5. O Evangelho como Boa Nova do Reino

O Prefácio da Missa de Cristo Rei diz-nos que o Reino de Deus é um Reino de Verdade, de Justiça, de Amor e de Paz. è este Reino que a Igreja procura servir e concretizar na terra. Cristo foi movido pela compaixão e pela paixão do Reino. São as duas tónicas da missão de Jesus.

A compaixão é o deixar-se comover e tocar até às vísceras pelo sofrimento dos pobres: Eu tive compaixão deste povo que são como um rebanho sem pastor (Mt 9, 35-36).

A paixão pelo Reino levou-o até ao dom da vida: ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos amigos. E vós sereis meus amigos se fizerdes o que vos mando.

6. O Evangelho é Boa Nova para os pobres

O verdadeiro culto é culto do amor, em espírito e verdade, como Jesus falou à samaritana. Revela uma particular atenção ao clamor dos pobres, desde o Egipto (êxodo) até aos nossos dias. Jesus pergunta: quem me chamou? Quem me tocou?

Todo o Evangelho é um livro à Caridade, ao Amor. Ainda que eu fale todas as línguas (...) ainda que tenha o dom da profecia ou distribuir todos os bens pelos pobres (...) se não tiver Caridade nada vale (1 Cor 13). É que não basta fazer o bem. É preciso fazer o bem, bem feito. O bem tem de ser feito com gratuitidade e levar à promoção e libertaçao do pobre. É o sentido da partilha do óbolo da viúva ou da viúva de Sarepta (1 Reis 17).

É aos pequenos que o Senhor revela a sua sabedoria (Mt 11, 25ss). É preciso ter um coração simples e aberto para acolher a sabedoria de Deus. E a sabedoria do Evangelho, por vezes, está contra a sabedoria que orienta o mundo. Há muitas vezes tensão ou conflito entre estas duas sabedorias. Diz S. João (1 Jo 2, 11-19): não vos deixarei orfãos. Irmãos, se o mundo vos odeia, sabei que primeiro me odiou a Mim. Se fosseis do mundo, o mundo amaria o que era seu ... Temos a responsabilidade do mundo; não te peço, ó Pai, que os tires do mundo, mas que os libertes da corrupção (Jo 17, 15). A nós também Ele perguntará, como a Caim, o que foi feito do irmão Abel.

(Bernardino Queirós Alves - Padre)

Conde Alberto de Mun

Caros Amigos, depois de um breve intervalo em que tive necessidade de interromper a minha escrita nesta página, por motivo de trabalhos urgentes que estava a efectuar no computador, volto a descrever alguns Modelos Vicentinos, cabendo hoje a vez ao Conde Alberto de Mun. Mais uma vida direita como uma espada, a vida dum militar; modelo para vicentinos, pela inteira submissão à Igreja à qual, dentro das directrizes que Roma lhe apontava no campo social, sacrificou a sua brilhantíssima carreira, assim como a defesa de arreigadas convicções políticas. Dele se pôde dizer que era um cruzado. Foi-o de facto pela fé religiosa e patriótica e até mesmo pela ascendência, que seguida até ao século XII, nos apresenta um Austor de Mun que tomou parte na Sétima Cruzada e acompanhou S. Luís, a Damieta, mas a que não faltou também um Conde de Mun, bisavô do nosso biografado, filósofo materialista do século XVIII, um dos precursores da revolução, que serviu no Regimento dos Cadets de Gascogne e veio a ser marechal de campo e tenente-general do Exército Real. Nascido em 1841 num velho castelo de Lumigny, frequentou a Escola de Saint-Cyr e serviu no 3º Regimento de Caçadores de África, na Argélia onde, com seu irmão e o seu amigo La Tour du Pin, tomou parte em cinco campanhas nas quais expôs a vida vezes sem conta. Regressado a França em 1867, casa com sua prima, M.lle d'Andlau e entra na sua nova guarnição de Clermond-Ferrand. É aí que, inscrito na Conferência de S. Vicente de Paulo, faz o tirocínio da sua futura e intensissima acção social, pelo contacto que toma com as famílias pobres e com os patronatos. Pratica a caridade heroicamente em plena epidemia de varíola, durante a qual prossegue as suas visitas. Promovido a tenente, declara-se a guerra de 70. É inscrito no exército de Metz e entra nas batalhas de Borny e Gravelotte, onde recebe a Legião de Honra. Na carga de Rezonville, encontra o seu amigo La Tour du Pin. "Ainda veremos belos dias para a França", lhe diz este. Mas vem a inexplicável ordem de retirada para Metz e a notícia da vergonhosa capitulação chega até eles. De Mun chora lágrimas amargas e confessa nunca ter sentido tamanha tristeza. Conduzido para Aix-la-Chapelle, é aí, no exílio, que toma contacto com o movimento popular católico, do qual Monsenhor Ketteler era o grande animador. De novo em França encontra aí a Comuna; à sua cólera indignada junta-se também a compaixão que o leva a reprovar os excessos na repressão, sem apuramento de responsabilidades. Foi a indiferença religiosa e moral que deu lugar à revolução, donde conclui ser preciso fazer a educação do povo, tarefa a que promete dedicar-se. Convidado a visitar o Círculo Operário de Montparnasse, ali se apresenta e tem ocasião de admirar a Conferência de S. Vicente de Paulo, onde pobres operários fazem a caridade a outros ainda mais pobres do que eles; preside a uma sessão em que discursa e só então toma consciência de que é orador. Depois, ajudado por seu irmão e por La Tour du Pin, pretende fundar círculos semelhantes em todos os bairros de Paris, em toda a França. É preciso opor às doutrinas subversivas da revolução as santas lições do Evangelho; ao materialismo, as noções do sacrifício; ao espírito cosmopolita, a ideia da pátria; à negação, a afirmação católica. Pretende, com os círculos, montar o instrumento da contra-revolução, em nome do "Syllabus". Inaugura-se o primeiro círculo em Belleville, com a indispensável Conferência de S. Vicente de Paulo; logo a seguir vem o de Montmartre, dentro dos vinte projectados em Paris. Fundam-se logo também dois em Lyon e de tal maneira crescem em número, que em 1875 se contam em França, 150, com 18 000 membros. Tornam-se porém suspeitos às esquerdas que os tomam como Confrarias Religiosas e também às direitas, como focos de utopias revolucionárias. Mas a juventude militar está com ele; dum cadete de Saint- Cyr recebe uma carta, em que se lêem estas passagens: "Deste-nos a todos a ambição de servir a nação pela palavra e com a espada ... o nosso voto mais querido é ver-vos um dia à nossa frente no campo de batalha, como igualmente estareis nas lutas pacíficas da regeneração nacional". Assina esta carta:"Hubert Liautey". Mas na Assembleia Nacional é acusado de provocar a guerra civil e os seus superiores acham escandaloso que um oficial pregue a fraternidade cristã. Apertado nesta luta de consciência, entre o seu dever de cristão e o amor à farda, não hesita; quebra a espada aos trinta e quatro anos. A vitória é de Deus, mas nela deixou boa parte do coração! Aprovada entretanto, por um voto de maioria, a constituição da República, no ano de 1875, fazem-se eleições e De Mun, certo de que na tribuna da Câmara melhor servirá as ideias católicas e sociais, apresenta-se como candidato católico, acima de tudo, mas também da extrema-direita. Eleito deputado em 1876, continuará a sê-lo por trinta e oito anos, até à morte. E que soma de serviços prestou ele à França e à Igreja, a cuja disposição pôs todo o seu formidável talento de orador, que não conheceu um desaire! A sua presença, de elevada estatura, porte cheio de dignidade, olhar nobre, logo o impõe, antes mesmo de abrir a boca, Fala e a voz segue o pensamento; este vai tomando força, desenvolve tal actividade, que levanta aplausos e triunfa do silêncio. Em 1898 todos os partidos lhe prestam homenagem quando é recebido na Academia Francesa. Sempre na oposição, De Mun experimenta dificuldade em tomar partido entre metade da alma ligada ao passado e a outra metade arrastada para a frente. Compreende que o mais importante é defender a sua fé, que sente ameaçada, e sonha então realizar o agrupamento de todas as forças católicas num grande partido, sem distinção de afinidades políticas, para o que - sempre o mesmo cruzado - quer levantar o estandarte da cruz sob as directrizes de Roma. Erguem-se então também contra ele os antigos amigos da extrema direita, receosos da desunião; ele porém só ouve a voz do Papa. Quem poderia calá-lo? Mas Leâo XIII fala e, aprovando, em princípio, a ideia, julga inoportuna a ligação com um partido político; De Mun sujeita-se, mas a renúncia a tão querida ideia constitui mais um sacrifício bem duro! Resta-lhe a glória de ser o maior orador parlamentar de França, mas, por brilhantes que sejam, as suas intervenções não conseguem deslocar as votações das maiorias. Ingrato papel o seu! No campo social, porém, é notável e fecunda a sua acção à qual. juntamente com o objectivo religioso, tende a fundação dos círculos, "o seu grande negócio", como ele lhe chamava . É bem o precursor que compreende a gravidade e a urgência da situação. O insuspeito ministro Barthou conveio em que não havia, se pode dizer, uma lei de carácter social da 3ª República, na qual De Mun não tivesse colaborado. Incompreendido muitas vezes pelos seus, tem ao menos a consolação de receber a melhor das consagrações com a publicação da Encíclica "Rerum Novarum". Em Setembro de 1891 preside a uma peregrinação de 15 000 operários a Roma, onde é carinhosamente recebido por Leão XIII, que á da mesma maneira o acolhera e estimulara em 1878. Vêmo-lo depois nas lutas religiosas, que atormentavam a França no começo do século XIX, tomar a nobre posição de combate que dele seria de esperar. À reflexão de Barthou, de que "os religiosos não são homens livres", opõe esta admirável resposta: ...
"estes homens e estas mulheres que renunciaram a pedir ao mundo as suas alegrias, para lhe darem exemplos de pobreza voluntária, de castidade heróica, de obediência reflectida, de dedicação sem recompensa humana, por vezes pagos com ultrajes e com o desprezo, fazem assim, no sacrifício da sua liberdade, o último, o mais magnifico, o mais decisivo uso da mesma liberdade".
Com que firmeza soube combater as iníquas leis que expulsaram Congregações e fecharam escolas! Na imprensa, aconselha uma resistência digna da qual ele próprio dá exemplo na sua querida Bretanha. E na Câmara acusa violentamente o Governo da violação da lei e do encerramento de 2 800 escolas. - "Ainda não é o bastante", interrompe cinicamente um membro da maioria, interrupção que De Mun magistralmente aproveita para exclamar:
"Meus senhores, como vos agradeço as vossas interrupções. Só lamento que as não façais em tom mais elevado ainda, pois é preciso que toda a Nação vos oiça; é preciso que nesta terra, onde há tantos surdos e tantos cegos, toda a gente saiba e veja claramente, duma vez para sempre, que quereis a destruição total e completa do ensino cristão". E voltando-se para o Presidente do Conselho, em indignado brado: "Com que direito pusestes a mão sobre a liberdade?"
E ao ser votada a lei da separação, exclama: "Desde Metz para cá, nunca experimentei tão amargamente a vergonha duma derrota sem glória!"
Afastado, por doença, da tribuna, escreve, sempre com igual energia, e chegamos assim ao ano de 1914: doente e cansado - tem já setenta e três anos - assiste à declaração de guerra; não pode combater, mas tem três filhos nas fileiras e, pela sua parte, durante dois meses, os seus artigos quotidianos são, no dizer de Paulo Bourget, a pulsação do coração da própria França, e outorgando-lhe o título de "ministro da confiança nacional". E é quase moribundo que ajuda a levantar o moral dum povo inteiro. Reclama a criação dum corpo de capelães, que é encarregado de organizar.
Já próximo do fim, acompanha com o maior sacrifício o Governo na sua retirada para Bordéus, até que, num belo dia de Outubro, ao acabar de escrever o seu artigo, sente uma sufocação, prenúncio da crise fatal. Recebe os Sacramentos e entra na agonia.
A morte deste herói, que teve por lema "servir a Igreja e a Pátria", foi um luto nacional a que se associou todo o Governo, o Presidente da República, amigos e adversários políticos, em verdadeira e apoteótica manifestação da União Sagrada.
Ver www.ssvp-portugal.org texto de Gilberto Custódio António Fonseca