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sexta-feira, 17 de abril de 2009

EPÍLOGO - UM ANO A CAMINHAR COM SÃO PAULO

EPÍLOGO

PAULO FALA-NOS (DEPOIS) DO SEU MARTÍRIO

“PARA MIM, VIVER É CRISTO E MORRER UM LUCRO”

Não se e exactamente em que data nem de que modo Paulo foi morto. Os Actos dos Apóstolos, depois do relato da sua prisão em Jerusalém e da viagem para Roma, para aí ser julgado, dizem somente que aí permaneceu dois anos inteiros sob arresto domiciliário (28, 30). Com base em tradições posteriores, pensa-se que terá sido degolado na primeira metade dos anos sessenta.

Mas, mais do que as circunstâncias externas da sua morte, é o seu significado que nos deve interessar. Tanto mais que foi escrito directamente pelo próprio em Fl 1, 12-26, numa carta enviada da prisão, provavelmente em Éfeso, sem saber ainda o desfecho que o esperava. As suas palavras mostram-nos que para ele a morte física não iria ser o termo, mas o auge de uma vida que se prolonga muito para além dos nossos dias e da qual continuamos hoje a usufruir. Vejamos em que sentido.

Fl 1, 12-26

Mas quero dar-vos a conhecer, irmãos, que o que se passa comigo acabou por contribuir ainda mais para o progresso do Evangelho: assim, foi em Cristo que as minhas prisões se tornaram conhecidas em todo o pretório e de todos os restantes; e a maioria dos irmãos do Senhor é pela confiança ganha devido às minhas prisões que têm mais coragem para, sem medo, anunciar a Palavra.

Embora alguns o façam por inveja e rivalidade, outros, porém, é mesmo com boa intenção que pregam a Cristo. Embora haja os que o fazem por caridade, sabendo que estou designado para a defesa do Evangelho, os que, porém, anunciam Cristo por ambição, sem sinceridade, pensam que estão a agravar a tributação que sofro nas minhas prisões. Mas que importa? Desde que, de qualquer modo, por subterfúgio ou por veracidade, Cristo seja anunciado, com isso me alegro.

Mais: alegrar-me-ei, pois sei que isto irá resultar para mim em salvação, devido às vossas orações e ao auxílio do Espírito de Jesus Cristo, de acordo com a minha expectativa e esperança de que em nada serei envergonhado. Pelo contrário, com todo o desassombro, como sempre também agora, Cristo será engrandecido no meu corpo, quer pela vida quer peia morte.

É que, para mim, viver é Cristo e morrer, um lucro. Se, porém, eu viver na carne, isso para mim reverterá em fruto da obra que realizo; o que hei-de escolher, não sei. Estou pressionado dos dois lados: tenho o desejo de partir e estar com Cristo, já que isso seria muito e muito melhor; mas permanecer na carne é mais necessário por causa de vós. E é confiado nisto que sei que ficarei e continuarei junto de todos vós para o vosso progresso e alegria da fé, a fim de que a vossa glória, que tendes em Cristo Jesus por meio de mim, aumente com a minha presença de novo junto de vós.

No centro das palavras de Paulo está o mesmo que sempre esteve no centro da sua vida apostólica: a alegria (v. 18). Alegra-se pelo que está a acontecer por causa sua prisão (vv. 12-18) e pelo que poderá suceder-lhe como resultado da mesma (vv. 19-26). Um preso que, quanto mais preso, mais livre se sente. Seria um contra-senso, se o que realmente o prende não fosse exactamente quem o faz plenamente livre: Cristo que, só com este título, é mencionado nove vezes. É por causa dele que está encarcerado (v. 13), de tal modo que na carta a Filémon, escrita do mesmo lugar, se apresenta como prisioneiro de Cristo Jesus (vv. 1.9). Mas continua seu prisioneiro, mesmo para além das amarras do cárcere e até da morte, que, por isso, enfrenta ainda com maior alegria.

Na base da sua alegria está a certeza da fé: Sei que isto irá resultar para mim em salvação (v. 19). O que sabe vem-lhe de Deus a quem se entrega. E fá-lo de três modos:

1. Recorre à sua Palavra: Isto irá resultar para mim em salvação é dito por Job (13, 16), como expressão de total confiança em Deus que, nem na morte, abandona os seus.

2. 2. Conta com as orações da comunidade à qual ele próprio se havia associado, também pela oração e por uma causa comum: o anúncio do Evangelho (1, 4s). Por isso:

3. Confia no auxílio do Espírito de Jesus Cristo, certamente pedido nas orações da comunidade e prometido por Jesus aos mensageiros do Evangelho (Mc 13, 11).

A esta fé corresponde, como ele diz, a expectativa e esperança de que em nada serei envergonhado (v. 20). De novo se apoia em palavras sagradas (Sl 24, 2s.20; 68, 7; 118, 31.80.116): como o salmista, também ele não será envergonhado na missão de testemunhar Cristo. Pelo contrário: se a tribulação produz a paciência, a paciência a comprovação, e a comprovação a esperança, e esta não engana (Rm 5, 4s), então é nas tribulações, como aquela por que está a passar, que – acrescenta elecom todo o desassombro (...) Cristo será engrandecido no meu corpo, quer pela vida quer pela morte. É nas tribulações que mais se sente o poder vivificante do triunfo de Cristo sobre a morte. E o primeiro dele a usufruir é o Apóstolo.

Daí que ele diga: Para mim, viver é Cristo e morrer um lucro (v. 21). O seu critério de vida, aquilo que o faz viver, não é qualquer bem confinado a este mundo limitado e perecível, mas unicamente Cristo que para sempre venceu a morte e, nessas condições, o conquistou, o prendeu parta uma vida como a sua. Se para o Apóstolo viver é Cristo é porque Cristo é a sua vida, no sentido de que já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim (Gl 2, 20).

E é na medida em que Cristo vive em mim e eu para Cristo, que morrer é um lucro. Não porque esteja cansado de viver, mas exactamente o contrário: porque a minha vida consiste em desfazer-me dela em favor dos outros, como fez o Filho de Deus que me amou e a si mesmo se entregou por mim (Gl 2, 20). A morte é só um lucro, porque nela me uno plenamente àquele que me faz viver, para gozar perpetuamente do amor com que Ele próprio venceu a morte.

Compreende-se assim o dilema de Paulo: por um lado, deseja morrer, para estar com Cristo para sempre: por outro, vê como é necessário permanecer na carne para, pela presença física, continuar a contribuir para o progresso e alegria da fé das suas comunidades (vv. 22-26). Opta pela segunda hipótese, na esperança de deixar a cadeia em liberdade, mas levado pelo mesmo amor que anseia por saborear na união definitiva com Cristo. Dito por palavras suas: Nenhum de nós vive para si mesmo e nenhum de nós morre para si mesmo. Se vivemos, é para o Senhor que vivemos, e se morremos, é para o Senhor que morremos. Ou seja, quer vivamos quer morramos, é ao Senhor que pertencemos. Pois foi para isto que Cristo morreu e voltou à vida: para ser Senhor dos vivos e dos mortos (Rm 14, 7-9).

Daí que nada mais lhe interesse, senão que Cristo seja anunciado (v. 18). Foi o que fez até à morte. Ou melhor, até ao triunfo sobre a morte. Uma prova de que está vivo, é o testemunho (martírio, em grego) que tantos de nós, levados por ele, damos de Cristo.

In:Um Ano a caminhar com São Paulo

De: D. Anacleto de OliveiraBispo Auxiliar de Lisboa

Compilado por: António Fonseca - 10-04-2009

LEITURA Nº 52 - UM ANO A CAMINHAR COM SÃO PAULO

52

“O DIA DO SENHOR CHEGA DE NOITE COMO UM LADRÃO”

Tudo indica que Paulo contava estar vivo por altura da parusia de Cristo. Mesmo na última carta escrita em vida, ele afirma que a salvação está agora mais perto de nós do que quando começamos a acreditar (Rm 13, 14). Não tendo isso acontecido, ter-se-á ele enganado? A verdade é que de nenhuma das suas cartas foi riscada a convicção de que o Senhor está próximo (Fl 4, 4). Não será porque a iminência temporal, mais do que cronológica, é de entender em sentido qualitativo?

Ainda hoje a parusia de Cristo é posta em causa por duas posições extremas; a dos que, confiados nas próprias capacidades e nos meios e progressos da ciência e da técnica, procuram um paraíso confinado a este mundo; e a dos que, levados por um medo paralisante, devido a desgraças de toda a espécie, chegam ao ponto de fixar a data do fim do mundo. Além das desilusões em que uns e outros acabam por cair, falta-lhes uma confiança em Deus, de acordo com o que Ele realmente é e faz pela nossa salvação.

É para isso que Paulo chama a atenção, sempre que fala da última vinda de Cristo, nomeadamente em 1 Ts 5, 1-11, aqui, na sequência da resposta à questão acerca da sorte dos que haviam falecido. Depois de assegurar que também eles participarão da salvação definitiva oferecida por Cristo na sua parusia (4, 13-18), procura agora desfazer as dúvidas que a põem em causa e mostrar como viver na sua expectativa... também hoje.

1 Ts 5, – 1,-11

Quanto a tempos e momentos, irmãos, não há necessidade de que vos escreva. Com efeito, vós próprios sabeis exactamente que o dia do Senhor chega de noite como um ladrão. Quando disserem: «paz e segurança», então virá repentinamente sobre eles a ruína como as dores do parto sobre a mulher grávida, e de modo nenhum escaparão.

Mas vós, irmãos, não estais nas trevas, de modo que esse dia vos apanhe como um ladrão. Com efeito, todos vós sois filhos da luz e filhos do dia. Não somos nem da noite nem das trevas. Portanto, não durmamos como os outros, mas vigiemos e sejamos sóbrios. Pois os que dormem é de noite que dormem e os que se embriagam é de noite que se embriagam. Mas nós, que somos do dia, sejamos sóbrios, revestidos com a couraça da fé e da caridade e com o elmo da esperança da salvação.

É que Deus não nos destinou à ira, mas à aquisição da salvação, por meio de Nosso Senhor Jesus Cristo que morreu por nós, a fim de que, quer vigiemos quer durmamos, vivamos em sintonia com Ele. Por isso consolai-vos uns aos outros e edificai-vos mutuamente, como já fazeis.

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Como há dias e dias, também os tempos (em grego khrónoi) se medem, não tanto pela sua duração, como sobretudo pela importância do que neles acontece, isto é, pelos seus momentos (em grego kairó) decisivos. São momentos históricos dos quais, na medida em que nos afectam, vivemos uma vida inteira. Por isso, de tempos a tempos, os comemoramos, actualizando-os até através do memorial celebrativo.

Nós cristãos vivemos entre duas intervenções salvíficas de Deus que na realidade, são uma só, mas distribuída por dois momentos complementares a que chamamos escatológicos, isto é, extremos ou últimos: a primeira vinda de Seu Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo que morreu por nós (v. 9s) e pela sua ressurreição nos abriu, de um modo único e definitivo, o caminho para Deus, e a sua última vinda, no dia do Senhor (v. 2), em que, no final da história, consumará, a nível pessoal e cósmico, a iniciada e na qual já participamos.

Para indicar a sua dimensão escatológica e gloriosa, Paulo serve-se, entre outras, das seguintes expressões: dia do Senhor (1 Cor 1, 8; 5, 5; 2 Cor 1, 14; Fl 1, 6, 10; 2, 16; 2 Ts 2, 2) que, no AT e a partir de Am 5, 18.20, realça a componente judicial da intervenção de Deus, partilhada por Jesus Cristo, o Filho do Homem sentado à direita de Deus e vindo sobre as nuvens do Céu (Mc 14, 62); e parusia (1 Cor 15, 23; 1 Ts 2, 19; 3, 3; 4, 15; 5, 23; 2 Ts 2, 1, 8), um termo que significa presença e era aplicado à visita de um príncipe ou à manifestação de uma divindade.

Que a gloriosa parusia de Cristo completa a sua primeira vinda, é indicado pelo objectivo por que morreu por nós; a fim de que, quer vigiemos quer durmamos, isto é, vivos ou mortos, vivamos em sintonia com Ele (v. 10), no presente (Gl 2, 19; 2 Cor 5, 15) e no futuro escatológico (1 Ts 4, 17). Daí que o tempo que separa uma vinda da outra seja qualitativamente breve: na medida em que está preenchido pela salvação já iniciada, estamos capacitados para vencer todos os obstáculos que ainda nos separam da sua consumação final. não é isso que sentimos, até humanamente, quando, perante uma contrariedade, temos a certeza de que ela há-de acabar? na vida cristã, essa certeza é a da fé que, temporalmente, se torna esperança e se manifesta na nossa prática de vida.

É para esta prática que Paulo chama a nossa atenção, no texto que nos ocupa, também ele literariamente envolvido pela referência às duas vindas de Cristo. Começa por nos dizer o que não é sequer de tentar fazer: saber quando será o dia do Senhor (vv. 2s). Só podemos saber que o não sabemos. É uma ignorância que se deve ao facto de o dia em causa ser do Senhor. E para com Ele a única atitude a tomar é a da fé. Para isso, há que reconhecer as nossas limitações, incluindo as do conhecimento, para a Ele nos confiarmos, sabendo que o que Ele faz é sempre para nosso bem e ultrapassa, pelo amor poderoso e ilimitado com o que faz, as nossas expectativas humanas. Não queiramos, por isso, assenhorear-nos do tempo de que só Ele é o Senhor. A certeza de que virá o seu dia, porque baseada na plica a incerteza quanto à sua data: virá de noite como um ladrão, isto é, inesperadamente, e como as dores do parto sobre a mulher grávida, isto é, inevitavelmente. Apoiar-se na própria segurança revelar-se-á, a seu tempo, como uma total e terrível insegurança.

A fé, por sua vez, manifesta-se numa permanente vigilância e sobriedade (vv. 4-8). Uma exige a outra. Deixar-nos dominar pelos bens materiais que, embora necessários para viver, são limitados e perecíveis, tolda-nos o olhar, impede-nos de ver para além de nós próprios. Mas se, com a regeneração pela fé e o Baptismo, nos tornamos filhos da luz e filhos do dia, vivamos conforme somos. Como filhos pertencemos àquele que se manifesta como luz que ilumina e aquece, já na sua primeira vinda e, de um modo inexcedivelmente luminoso, no dia da sua gloriosa parusia. E se a Ele pertencemos, vivamos revestidos com o que nos faz andar vigilantes e sóbrios: com a couraça da fé e da caridade e com o elmo da esperança. E partilhemos esta protecção do coração e da cabeça com os que lutam como nós: Consolai-vos uns aos outros e edificai-vos mutuamente (v. 11). É que a união faz a força, sobretudo se vem de Deus.

In:Um Ano a caminhar com São Paulo

De: D. Anacleto de OliveiraBispo Auxiliar de Lisboa

Compilado por: António Fonseca - 10-04-2009

LEITURA Nº 51 - UM ANO A CAMINHAR COM SÃO PAULO

Olá Amigos e Irmãos em Cristo. Finalmente voltei ao vosso convívio, um pouco antes do que pensava. Dei entrada no Hospital da Casa de Saúde de Santa Maria, na passada terça-feira, às 13 horas e à noite fui operado ao braço, às nove e meia e ontem Quinta-feira cerca do meio dia já estava em casa. Durante o dia mantive-me mais ou menos em descanso, não tendo qualquer dor; dormi bem e hoje estou apenas com um pequeno inchaço na mão esquerda (pelo facto de ter andado mais de noventa dias com o braço engessado - 60 dias primeiro e mais 30 dias sem gesso, - mas ligado). Agora ando a ginasticar a mobilidade da mão e na próxima quarta-feira deve ser retirado o penso e a ligadura que estão por cima do corte efectuado pela intervenção cirúrgica e espero já estar pelo menos, muito melhor do que estou agora. Penso depois deslocar-me ao Hospital de S. João para manifestar ali, no Livro de reclamações, a minha insatisfação e a minha revolta, pelo facto de não terem resolvido fazer o que tinha de ser feito - (e que aliás, acabou por ser feito pelo médico dos SAMS, Dr. Pinto Borges) - e, que era muito simplesmente propor e efectuar a operação à fractura que eu sofri. Isto evitaria que eu tivesse sofrido as dores que sofri durante mais de 90 dias, quando numa hora apenas, o problema ficou definitivamente resolvido!!! Possivelmente além de fazer a reclamação - o que me foi aconselhado fazer, por muitas pessoas, entre os quais alguns Colegas dos Médicos e Enfermeiros do serviço de Urgência daquele Hospital, que ali estavam a trabalhar no dia 11 de Janeiro de 2009, - se calhar, ainda sou capaz de solicitar alguma indemnização! Veremos, o que vou fazer. »»»»»»»»»»»»»»«««««««««««««««»»»»»»»»»»»»»»»»»«««««««««««««««««««»» Como na segunda-feira passada fiz já o "trabalho" adiantado, aproveito este espaço para publicar as três últimas Leituras do livro "Um Ano a caminhar com S. Paulo" e, no próximo Domingo reiniciarei o que vinha fazendo anteriormente, assim Deus o permita.

51

“COMO SERÃO RESSUSCITADOS OS MORTOS”

A maior causa da dificuldade, mesmo de cristãos, em acreditar na ressurreição dos mortos é a verificação do que se passa com o corpo: a sua decomposição até ao desaparecimento. E, depois, +para quê a sua reunificação com a alma, se com esta já se pode gozar de uma felicidade perene e perfeita junto de Deus?

Terá sido esta distinção dualista entre corpo e alma que contribuiu para que já alguns cristãos de Corinto afirmassem que não há ressurreição dos mortos (1 Cor 15, 12). Tanto mais que, para a antropologia popular grega, era um degredo viver no corpo. Além disso, tais cristãos sentiam-se, pela transformação baptismal, tão possuídos pelo Espirito que, ainda na existência corporal, ser consideravam já como que ressuscitados.

Mas será que eles não mediam o alcance destas suas ideias sobretudo relativamente ao conteúdo do Evangelho? De qualquer modo, é a partir dele (15, 1-11) que Paulo conclui: Se não há ressurreição dos mortos, também Cristo não ressuscitou. Mas, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação e vã a nossa fé (15, 13s). É, pois, na verdade incontestável da ressurreição de Cristo que se funda a ressurreição dos mortos, em, si (15, 12-34) e na sua componente corporal, como Paulo nos mostra em:

1 Cor 15, – 35,49

Mas alguém dirá: Como serão ressuscitados os mortos? Mas com que corpo vêm eles? Insensato! O que tu semeias não será feito vivo, se não morre. E o que semeias não é o corpo que há-de vir, mas um grão nu, por exemplo, de trigo ou de qualquer outra espécie. Mas é Deus quem lhe dá o corpo como Ele quis, e a cada uma das sementes o seu próprio corpo.

Nem toda a carne é a mesma carne, mas enquanto uma é dos homens, outra é carne de animais, outra é carne de aves, outra de peixes. E há corpos celestes e corpos terrestres; mas um é o brilho dos celestes, outro dos terrestres. Um é o brilho do Sol e outro o brilho da Lua e outro o brilho das estrelas; até uma estrela difere da outra estrela em brilho.

Assim acontece também com a ressurreição dos mortos: semeado em corruptibilidade, é ressuscitado em incorruptibilidade; semeado em desonra, é ressuscitado em glória; semeado em fraqueza é ressuscitado em força; semeado corpo natural, é ressuscitado corpo espiritual. Se há um corpo natural, há também um espiritual.

É assim que também está escrito: o primeiro «homem», Adão «tornou-se uma alma vivente» e o último Adão um espirito vivificante. Mas o primeiro não é o espiritual, mas o natural; depois é que vem o espiritual. O primeiro homem, tirado da terra, é terrestre; o segundo homem é do Céu. Tal como o terrestre, assim são também os terrestres; e tal como o celeste, assim são também os celestes. E assim como trouxemos a imagem do terrestre, assim traremos também a imagem do celeste.

Insensato não é tanto quem pergunta (v. 35), como sobretudo quem, pelo menos, não tenta perceber a resposta de Paulo (vv. 36-49). É constituída por quatro argumentos, dos quais os dois primeiros são tirados, por analogia, da vida vegetal e animal.

1. Somos como um grão nu (vv. 36-38). De facto, a planta que nasce parece nada ter a ver com a semente que lhe deu origem, tão grande é a diferença entre elas: entre a nudez morte da semente e a vitalidade do corpo da planta. Mesmo para conhecedores da biogénese, é um milagre da natureza, ou melhor, de Deus seu criador.

A semente evoca a nudez do nosso corpo frágil, caduco, mortal. Mas, porque não há-de Deus fazer dele como faz no seu reino da flora? A analogia já era conhecida da literatura rabínica, porém com duas diferenças: a nudez da semente era relacionada apenas com o cadáver que se desfaz, e na passagem da morte à ressurreição apenas se falava de continuidade. Segundo Paulo, o corpo ressuscitado é obra do Deus que dá vida aos mortos e chama à existência o que não existe (Rm 4, 17); e o ser que cria nada tem da nudez do grão que somos, da qual a morte é apenas a conclusão.

2. Seremos como corpos celestes (vv. 39-41). A diferença entre o que somos e o que seremos é completada pela dupla diferença entre os seres vivos: entre os carnais da terra e destes com os luminosos do globo celeste, que no brilho também diferem entre si.

Se o Deus Todo-Poderoso assim criou uns e outros (Gn 1, 14-18.26), como não poderá Ele dar aos nossos corpos carnais um brilho incalculavelmente superior? Mas não se esqueça que, sem corpo não há brilho que se mostre e se apreenda, mesmo depois da morte. A corporeidade é indispensável em qualquer estado de existência humana.

3. Teremos um corpo espiritual (vv. 42-44), mas não no sentido de invisível. Já a respeito do corpo terreno, em vez de natural, à letra deveria traduzir-se por psíquico, porque constituído pela psykhê. E esta não é, na concepção antropológica semítica, a alma separável do corpo, mas o ser humano enquanto dotado de vida. Uma vida, contudo, que provém do Espírito ou sopro vital dado por Deus, Autor e Senhor da vida (Gn 2, 7). Neste caso, e em oposição a natural, o corpo é espiritual, porque animado pelo Espírito de Deus num grau imensuravelmente superior.

É aquele grau adquirido pela passagem, na ressurreição dos mortos, do estado de corruptibilidade, desonra e fraqueza do corpo natural para o da incorruptibilidade, glória e força, próprias do corpo espiritual. É a espiritualidade ou vitalidade que só Deus pode dar. Mas de que modo?

4. Segundo a Escritura, havemos de trazer a imagem do último Adão que se tornou um Espírito vivificante (vv. 45-49). Paulo começa por corrigir (vv. 45-47) a interpretação da criação do homem, proveniente de Filão de Alexandria, que distinguia o homem celeste e espiritual, criado como imagem de Deus (Gn 1, 26s), do homem terreno, criado do pó das terra(2, 7). É a este, porém, que Paulo chama o primeiro Adão e identifica Cristo como o último ou segundo. Enquanto o primeiro é apenas natural e terrestre. Cristo é espiritual, é do céu, e tornou-se, pela sua ressurreição, um Espírito vivificante.

De facto, aqueles que, pela fé e o Baptismo, se unem a Ele, recebem dele o mesmo Espírito com que Deus o ressuscitou dos mortos (Rm 8, 11), como primícias ou penhor da salvação eterna (2 Cor 1, 22; 5, 5; Rm 8, 23). E na medida em que dele vivemos e por Ele nos guiamos, começamos já a deixar de trazer em nós a imagem do Adão terrestre, frágil e pecador, e estamos a caminho do dia da sua última vinda, em que, definitivamente, traremos a imagem do celeste (v. 49).

A imagem supõe-se que seja visível, palpável, corporal. Somos imagem de Cristo, como Ele é de Deus (2 Cor 4, 4; Cl 1, 15) na medida em que são visíveis nos nossos corpos as marcas daquele amor com que Ele, no seu corpo glorioso, se tornou Espírito vivificante... depois de, qual grão de trigo, ter sido lançado à terra e ter morrido (Jo 12, 24).

In:Um Ano a caminhar com São Paulo

De: D. Anacleto de OliveiraBispo Auxiliar de Lisboa

Compilado por: António Fonseca - 09-04-2009